''Exposição – A Origem''. Entrevista a Hélio Cunha

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  • No próximo dia 13 de setembro, pelas 18h30 será inaugurada na Galeria de Arte da Fundação Marquês de Pombal, uma exposição de desenho da autoria de Hélio Cunha. 

    O artista falou, em entrevista, sobre esta exposição, bem como a sua vida artística. 

    Fale-nos um pouco sobre a exposição que agora inaugura “Exposição - A Origem”. O que podem os visitantes aqui encontrar?

    Podem encontrar desenhos que surgem de modo automático e espontâneo e passam para o papel muito mais rapidamente que as pinturas passam para a tela. Por vezes, alguns desses desenhos dão origem a pinturas, no meu caso é sempre assim, a pintura surge-me sempre a partir de desenhos ou esboços iniciais. É, precisamente, por o desenho ser o princípio de tudo, que intitulei esta mostra “A Origem”.

    Ao Palácio Marquês de Pombal traz uma exposição de desenho onde entramos num jogo de ambiguidades, aparentemente contraditórias, desafiando a lógica das proporções, um jogo objetos-personagens. Que características diferenciadoras traz esta pluralidade às suas obras?

    A arte é sempre um jogo de ambiguidades. René Magritte apresentou uma tela com a imagem de um cachimbo, escrevendo por baixo, “Isto não é um cachimbo”. Ele pretendia assinalar que a imagem de uma coisa não é a coisa, embora para os observadores em geral, aparentemente, aquilo seja um cachimbo. Curiosamente também, nas iluminuras medievais as proporções não eram respeitadas. O rei e a rainha, mesmo que estivessem mais afastados eram sempre maiores que as figuras que representavam o povo. Aí, “a coisa” era premeditada. Na minha pintura penso que não há nada que seja premeditado. As coisas surgem tal como são e por vezes torna-se impossível explicar por quê, pelo simples facto de precisamente não haver nisso qualquer intenção. Trata-se apenas de representar graficamente, com um máximo de sinceridade, aquilo que se pode transportar do subconsciente para a tela, pois é essa sinceridade que nos define no estilo e nos personaliza. Obviamente, em qualquer tipo de composição há sempre um pouco de MISE EN SCÈNE.

    Dada a singularidade vincada nas suas obras, pretende nelas passar algum tipo de mensagem ou levantar interrogações aos visitantes?

    No meu entendimento a arte não deverá transmitir mensagens objetivas, isso é domínio da propaganda. No entanto penso que poderá passar mensagens subliminares que possam eventualmente fazer parte ou ser apreendidas através do chamado inconsciente coletivo. Muito menos me compete “dar instruções” para um melhor entendimento dos trabalhos. Isso, mesmo que eu tivesse uma chave interpretativa, mataria por completo o mistério e, além disso, iria influenciar as opiniões alheias com a minha própria opinião. Cada um deve ver nas obras o que entender e é precisamente essa pluralidade de interpretações que torna interessante a observação de uma obra de arte. Wilde deu a entender que aquilo que melhor revela uma obra de arte é o mundo interior de cada um dos observadores.

    Agora falando um pouco mais de si, como surge esta paixão pela arte na sua vida?

    Sou levado a constatar que o interesse pela arte não “surge”; já nasce connosco. No entanto como sempre tive uma vida profissional intensa, que nada tinha a ver com artes plásticas, comecei a pintar um pouco tarde, depois dos trinta. Mas a semente estava lá e foi impossível fugir-lhe.

    Escreveram, acerca da sua obra, personalidades ligadas às artes plásticas, à música e à escrita, é mencionado em livros e, inclusive, a Chiado Editora lançou um livro acerca da sua obra, intitulado Hélio Cunha / Pintura Desenho Palavras, prefaciado por Cruzeiro Seixas. Como vê esta importância dada aos seus trabalhos?

    Acho que tem havido uma grande generosidade por parte de algumas pessoas que tenho conhecido ao longo da vida. Não posso negar que, sendo autodidata isto é, não tendo habilitações académicas poderia passar por um eterno diletante e, por esse motivo, a opinião dessas pessoas é para mim muito importante e estimulante. 

    Obteve o 1º Prémio e uma Menção Honrosa em pintura nas Comemorações do Centenário das Telecomunicações, um 1º e um 2º Prémios Portugal Telecom em Pintura, uma Menção Honrosa no concurso Mergulhe na Expo 98 e o Prémio de Pintura MAC 2015. Que importância e peso na sua carreira artística trazem estas distinções?

    A importância é relativa. Por exemplo, em vida Van Gogh nunca recebeu nenhum prémio e apenas vendeu um quadro, ainda por cima ao seu próprio irmão.

    Para terminar, para além da exposição agora a inaugurar no Palácio dos Aciprestes, já tem projetos futuros de que possa falar?

    Sim, tenho mais uma exposição este ano, na CNAP. Para o próximo ano também já existem algumas hipóteses, o MAC, o Sindicato dos Professores e uma Galeria Municipal que de momento não posso revelar. Gostaria, antes de terminar, de reiterar a minha satisfação pela possibilidade que me foi concedida de expor, aqui, na Fundação Marquês de Pombal.