Conferência: Bossa Nova 60 Anos - Entrevista a Manuel Mota

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  • No próximo dia 25 de novembro, pelas 15h00, o Salão Nobre Luís Vieira-Baptista, localizado no Palácio dos Aciprestes, em Linda-a-Velha, recebe a Conferência: Bossa Nova 60 Anos.

    Esta conferência será ministrada por Manuel Mota, que em entrevista explica a sua ligação com a Bossa Nova, e ainda o que levou à concepção deste encontro. 

    Leia a entrevista abaixo.

    É Professor Associado com Agregação do Departamento de Biologia da Universidade de Évora, dirige também o laboratório de Nematologia do ICAAM.
    Como surge a ideia desta conferência sobre Bossa Nova, sendo que é um "homem das ciências"?

    Há muitos anos que sou músico amador, tendo ainda estudado no Conservatório Nacional (fui colega de Riu Vieira Nery), e também na primeira Escola de Jazz do Hot Club de Portugal. E a música brasileira sempre foi a minha música popular favorita, desde que assisti ao histórico concerto de Vinicius de Moraes com Baden Powell, e a cantora Márcia, no Teatro Villaret em 1968. E dentro da música brasileira, sempre apreciei em particular a bossa nova, o estilo mais internacionalizado da música brasileira, de longe. A conferência surge pela efeméride, os 60 anos am que foi gravada a primeira canção de bossa nova, “Chega de Saudade”, por João Gilberto, em 1958.

    Tal como é dito na descrição desta conferência, em finais dos anos 60 "a bossa nova passou a ser considerada música “antiga”, e não interventiva". Acha que nos tempos de hoje, a Bossa Nova, tem vindo a conseguir voltar a conquistar o seu lugar nos estilos musicais da atualidade?

    A bossa nova teve sempre épocas altas e épocas baixas (apenas no sentido de popularidade e impacte); mas precisamente pela sua universalidade, pela qualidade das composições (tanto música como letra), terá sempre um lugar de destaque, e mais especialmente nos tempos de hoje em que a música dita “pop-rock”parece ter esgotado a sua originalidade e criatividade (em Portugal, p.ex. talvez à excepção do fado e do jazz), e se transformou numa “açorda sonora” incaracterística e indistinguivel. Basta escutar a rádio.

    Na mesma descrição considera a Bossa Nova como "o estilo musical mais internacional de sempre da música popular brasileira". Pode esclarecer-nos um pouco sobre o porque de assim considerar?

    A prova da sua internacionalidade é o incontável número de artistas mundiais, com especial destaque para os norte-americanos (Frank Sinatra é apenas um exemplo entre centenas) que gravaram canções BN. A “Garota de Ipanema” está no Guiness como a segunda cnção mais gravada e tocada na história da música popular (a seguir a “Yesterday”, do Beatles). Em qualquer parte do mundo é imediatamente reconhecida musicalmente (mesmo sem se entender a letra) logo nos pprimeiros quatro compassos.

    A seu ver, a Bossa Nova continua a ser um estilo musical apenas presente no Brasil ou considera que podem já existir artistas de outras nacionalidades que já conseguiram assegurar a Bossa Nova nos seus países?

    Há claramente outras nacionalidades. Basta começar por Portugal, e também os Estados Unidos, onde a fusão e interpenetração com o jazz é óbvia. Os japoneses são fanáticos pela bossa nova (BN). Tem sido destino de sucesso de grandes músicos como Roberto Menescal, e especialmente João Gilberto. E nesse país, já surgiram muitos artistas que se proclamam de intérpretes de BN. E são muito bons. Na Dinamarca, p.ex., existe um excelente pianista e compositor, Jesper hedegard, que é um expert em BN. Por sinal, irá estar presente no Pal. dos Aciprestes, no dia 25 de Novembro!

    Que razões aponta para que, finais dos anos 60,  a Bossa Nova tenha sido facilmente ultrapassada por outros estilos musicais?

    Essa época corresponde a grandes transformações sociais e políticas, não só no Brasil como em outros países, p.ex. em França, com o Maio de 68 ou os longos anos de contestação à Guerra do Vietname nos Estados Unidos. NO Brasil, com a chegada da ditadura militar em 1964, e particularmente a partir do endurecimento em finais de 1968 (o famoso “Acto Institucional-5” que cerceou drásticamente a liberdade), é natural que muitos músicos tenham enveredado por uma corrente de música mais interventiva e de protesto, como Chico Buarque, Gil, Caetano, etc.. Muitos tiveram de se exilar. A BN no seu próprio DNA não contemplava essa característica protestativa, pois tinha sido criada em outra época, de maior esperança e felicidade (a época do “amor, do sorriso e da flor”.

    Acha que se pode considerar o Samba como sendo "pai da Bossa Nova"? Considera que pode ser essa raiz uma das causas da grande aceitação da Bossa Nova entre os brasileiros?

    João Gilberto (JG) costumava dizer que na verdade o que el tocava era samba, e realmente a BN tem raízes sambistas, no seu aspecto rítmico, embora JG lhe tenha incutido uma batida muito especial, particularmente na forma como a mão direita do violão vai percutir os acordes, sempre suaves. Acho que sim, qualquer brasileiro, mesmo não sendo conhecedor de BN, reconhece de imediato o típico ritmo brasileiro.

    O Jazz, maioritariamente presente nos Estados Unidos da América, é facilmente comparado com Bossa Nova. O que nos pode falar desta ligação entre estes estilos musicais?

    Foi sempre um tema muito discutido, nomeadamente quem influenciou quem. Há sem dúvida pontes óbvias, mas mais do que no ritmo, nas harmonias. As sequências harmónicas são semelhantes. O ritmo não. JG e muitos músicos brasileiros de meados/ finais de 50, como Johnny Alf, João Donato ou Dick Farney, para citar apenas três, escutavam muito jazz. A BN vai apenas ser conhecida nos EUA em 1962, por ocasião de um mega-show de BN no famoso Carnegie Hall, em New York. A assistir, músicos de jazz tão distintos como Miles Davis ou Dizzie Gillespie. Ficaram encantados. Logo nesse ano, o grande orquestrador Quincy Jones, lança um disco com temas de BN. Sem dúvida que conquistou a América, e muitos músicos brasileiros (JG, Oscar Castro-Neves, Sérgio mendes, etc...) acabaram por fazer carreira lá. Em minha opinião a BN influenciou mais o jazz do que o inverso. Há um excelente texto que recomendo ler, do já referido Jesper Hedegard, sobre este assunto: “Porque música brasileira não é jazz”: https://www.scribd.com/document/336556223/Porque-Musica-Brasileira-Nao-e-Jazz.

    Considera que a Bossa Nova nasce com 'Chega de Saudade'? Terá sido esta a gravação original da bossa nova, a primeira que se pode dizer de bossa nova?

    Sem dúvida. Mas não nos podemos esquecer que para além do ineditismo do ritmo de JG, há músicos que preparam o caminho, por vezes desconhecidos: Baden Powell, Dick Farney, Johnny Alf, João Donato, e o caso extraordinário da cantora Norma Bengell.

    Para terminar, Ruy Castro escreve no seu livro "Chega de Saudade" que: "A bossa nova não merece esse saudosismo, a bossa nova é um património musical que precisa ser recuperado e mostrado para as gerações mais jovens, é uma questão de cultura, não de saudosismo.” Concorda com esta afirmação?

    100 %. Explicarei na conferência!